— Queridos amigos, estamos aqui reunidos hoje¼
Maximus vibrava com uma energia excessiva, ignorando o ministro. De pé, como um peru recheado em seu fraque cinza-pombo, esperando que seu irmão e sua companheira concluíssem a cerimônia oficial, tudo que ele conseguia pensar era assinem logo a droga do contrato. Quanto antes ele saísse daquele terno horrível e pudesse correr por vários quilômetros no ar puro e fresco do deserto, melhor. Ele esticou o pescoço sob a gola branca e rígida. Não havia muita necessidade de tais trajes nos sagrados corredores de uma biblioteca empoeirada, pesquisando escritos antigos, buscando pistas sobre o paradeiro de objetos sagrados, em especial o mais sagrado dos cálices da Casa Luceres, o Cálice do Sangue de Lobo. Pensar em colocar as mãos no item inestimável fez seu pulso acelerar.
Vidas dedicadas aos grandes salões de conhecimento eram uma vocação para a qual ele e seu gêmeo Alessandro eram perfeitamente adequados. Ele não queria o trabalho nada invejável de CEO de uma rede internacional de cassinos, como os que seu irmão, que em breve estaria casado, comandava, embora ele admirasse como seu irmão gerenciava a posição com tanto estilo e graça.
Mas até mesmo Cristaldo precisava soltar seu lobo de vez em quando para gerenciar sua fera de maneira eficaz. Maximus escondeu um sorriso ao se lembrar de como seu irmão alfa se descarrilhou quando conheceu a adorável e demasiadamente humana Everly. Ele quase perdeu as estribeiras, de acordo com seu outro irmão, Lucius — gêmeo de Cristaldo — que demonstrava imenso prazer em lembrar a todos deste fato.
— E você, Everly Joy Affini, aceita este homem, Cristaldo Maximus Luceres, como seu legítimo esposo, até que vocês renasçam?
— Aceito.
As palavras soaram tão definitivas, embora bastante precisas, e foram acompanhadas por algumas notas de surpresa entre os convidados humanos. Eles ficariam ainda mais surpresos se soubessem o que aquilo realmente significava: que uma vez unidos aos seus Companheiros Eternos, os lobisomens, ao morrerem, reencarnavam e retornavam, se buscando até se encontrarem outra vez. Tudo o que eles precisavam era um plano para se reencontrarem, embora a fragrância de seu companheiro e o chamado da luxúria que isso criava parecessem ser suficientes na maioria dos casos. Era um mundo fascinante de se fazer parte, um mundo que abalaria os alicerces da sensibilidade humana. Razão pela qual devemos viver em segredo entre eles. Regra número um da matilha.
— E você, Cristaldo Maximus Luceres, aceita esta mulher, Everly Joy Affini, como sua legítima esposa, até que vocês renasçam?
— Aceito.
Seu irmão levantou o véu de sua companheira e o olhar de amor e adoração, tão nítido em seus olhos, fez com que Maximus desviasse o olhar. Sly, sentado na primeira fileira de bancos como mordomo interino da Casa Luceres, deixou escapar um soluço alto, sue rosto gentil enrugado de satisfação enquanto ele pressionava um lenço branco como neve em sua boca.
Um sentimento de necessidade e inveja se agitou dentro de Maximus, sua crueza pegando-o de surpresa. O que é isso? Ele passou os dedos entre a gola da camisa e o pescoço imóvel em uma tentativa de afrouxá-la. Respirando fundo, ele se forçou a permanecer imóvel e a assistir a parte final da cerimônia chegar à conclusão esperada. Seu gêmeo Alessandro se agitou ao seu lado, aparentemente precisando de um suspiro profundo também. A igreja estava quente e abafada ao extremo.
Ele aguentou firme encorajado pela visão em sua mente dos dois correndo pelo chão do deserto, a lua crescente acima iluminando o caminho. Ele não conseguia sequer imaginar a pensar nele e em Alessandro encontrando sua Companheira Eterna, ainda que ela assombrasse seus sonhos ocasionalmente. Aquela que amará nós dois. Será que ela existe?
Sua mente revisitou um cheiro intoxicante que ele havia sentido por breves segundos alguns meses antes enquanto visitava suas propriedades em Milão. Quem era aquela fêmea? A fragrância havia desaparecido antes que ele pudesse rastreá-la, um aborrecimento que ainda o assombrava.
— Pode beijar a noiva. — O brilho nos olhos do ministro expressava sua compreensão de quem eles eram e da importância do casal que ele estava unindo para toda a eternidade. Claro — ele era o pai deles, Cesare, de volta em casa com sua mãe, Sophia, após retornarem de uma viagem ao exterior. Toda a comunidade estendida estava presente ali, de todos os cantos do planeta. Mais de duzentos, apenas do lado da família deles, sentavam-se pacientemente — e alguns, em sua maioria homens — impacientemente nos bancos.
“Preciso sair daqui.”
“Em breve, irmão. Há tempo entre a cerimônia e a recepção para uma boa corrida.”
O tiquetaquear do relógio foi ficando cada vez mais alto em sua cabeça. Se houvesse apenas seres sobrenaturais presentes, ele poderia ter escapado antes que os noivos descessem o corredor para serem recebidos com felicitações e arroz. Mas, com os humanos, a situação era diferente.
Quando seu pai terminou a benção dos recém-casados e os documentos foram assinados, seu corpo inteiro pareceu estar prestes a desaparecer em um dos multiversos em que eles tinham se tornado lobos… e dessa vez, não voltavam. Correr livre para sempre do outro lado.
Não que ele tenha visto mais do que um vislumbre daquela dimensão especial em suas décadas de transformação. Ele havia estudado o fenômeno, é claro, entendendo que na física a energia nunca se perde e que lobisomens se alteravam em um nível quântico em razão de seu DNA especial.
Ele imaginou explicar isso a um professor de física na Sapienza, em Roma, onde ele e seu gêmeo eram acadêmicos residentes. Mas entender e prevenir isso eram coisas diferentes. Às vezes, ele tinha tanto controle quanto um camaleão que mudava de cor em um novo ambiente, especialmente quando a lua cheia chamava.
Uma nova energia no ar o despertou de suas reflexões. A agonia havia cessado e todos estavam se movendo, seguindo os recém-casados pelo tapete vermelho até a porta aberta. Ele inspirou fundo, sentindo o ar fresco preencher seus pulmões famintos do lado de fora das portas da igreja, observando a multidão se aglomerar, disputando a chance de falar com o casal feliz.
— Vamos pegar o helicóptero antes que mais alguém tenha a mesma ideia — disse Maximus, tirando a gravata preta, enfiando-a no bolso do paletó. Desabotoando alguns botões da camisa branda, os músculos tensos com a necessidade urgente de liberar o estresse acumulado dos últimos dias, ele deu um tapa nas costas de seu gêmeo. Alessandro esteva ao seu lado nos degraus da igreja, sua expressão calma. Ele sempre foi o mais paciente, desde o momento do nascimento quando ele deixou que seu gêmeo viesse ao mundo primeiro.
— Vamos.
Menos de dez minutos depois, eles estavam afivelando os cintos nos assentos do helicóptero. Ele estava abastecido e pronto, empoleirado como uma fera elegante no telhado do cassino Palácio Brilhante.
Maximus assumiu os controles e a força do motoros ergueu rapidamente, levando-os a grande altura acima do chão do deserto. Ele traçou o curso em direção à vasta propriedade desértica que a matilha possuía perto da Cidade do Pecado. Não que seu irmão gêmeo fosse menos habilidoso, mas Alessandro costumava deixá-lo liderar — uma situação que aliviava a rivalidade entre irmãos… na maior parte do tempo.
— Talvez nós sejamos os próximos — Alessandro ponderou, sua expressão distante quando Maximus olhou para ele.
Ele bufou diante da ideia enquanto mantinha os olhos atentos nos inúmeros mostradores que se alinhavam pela cabine de comando, lançando um olhar pela janela lateral em busca das plataformas de pouso.
— Pouco provável, irmão. Não há muitas mulheres que queiram dois homens em sua cama. Pelo menos, não muitas que admitam isso. Além do mais, ela vai gostar mais de mim quando eu mostrar meus consideráveis atributos. — Ele acrescentou um sorriso de lobo para reforçar a provocação, querendo garantir que seu irmão não fosse tomado pela melancolia que as festividades costumavam trazer aos membros da matilha ainda sem par.
— Não é o que você tem, irmão, é saber usar. E não é tudo sobre pau. Sua língua pode ser mais poderosa. E meu talento nessa direção é lendário.
A resposta o surpreendeu. Essa companheira de quem falavam era uma fantasia e, ainda assim, seu irmão o estava testando.
— Quando ela aceitar meu enlace, vai ser fim de jogo.
Alessandro permaneceu quieto enquanto Maximus pousava o helicóptero na plataforma e desligava o motor. Desafivelando o cinto de segurança, Maximus relembrou o motivo de estarem ali.
— Companheira ou não, é hora de caçar.
— Vamos nessa.
Ambos saltaram para o chão e começaram a se despir como se estivessem em chamas. Quando Alessandro ficou nu, seu corpo de guerreiro foi revelado em toda a sua glória sob a luz da lua, do peito largo aos músculos abdominais até as coxas fortes, Maximus sabia que estava vendo uma imagem espelhada de si mesmo. Uma imagem muito satisfatória. Eles também tinham em comum o cabelo escuro e espesso que se recusava a ser domado e paus que não desistiam.
Mas agora era hora de ser livre. A antecipação tomou conta e ele abraçou a transformação. Em segundos, ele atravessou o portal que brilhava com faíscas de luz ao adentrá-lo, cada célula de seu corpo se transformando em uma nova forma, antes de ser lançado de volta novamente.
Transformado. Em um lobo.
Ele se espreguiçou e piscou, seus sentidos aguçados a uma nitidez letal. Ele ergueu o focinho pra capturar a brisa fraca, testando, faminto por distração. A paisagem árida foi aprimorada por sua nova visão, mutada para uma variedade de tons desconhecidos para o olho humano. Tons sutis de preto, marrom e cinza. Movimentos de pequenas criaturas chamavam sua atenção antes que ele sentisse o cheiro de um grande carneiro-selvagem.
Por aqui.
Ele guiou a caçada, suas patas enormes diminuindo a distância rapidamente. Era bom ser um lobo. Tão bom que ele se permitiu a luxo de um uivo retumbante de canção de lobo, destinado a aguçar os sentidos de todas as criaturas do deserto.
“Você vai assustar nossa presa.”
Ele não gostou do lembrete. Claro, ele era espontâneo às vezes, mas isso era melhor do que demorar muito para tomar decisões — uma das características de Alessandro que poderia colocá-los em apuros um dia, se ele hesitasse no momento errado.
“Terão muitos outros, irmão, Fica de boa.”
Ele usou o corpo poderoso para dar ao irmão um empurrão firme no ombro. Alessandro revidou, mais forte do que ele havia feito.
“Manda ver.”
A rivalidade entre irmãos ajudava a mantê-los em ótima forma física, e ele estava mais do que pronto para o desafio.
Seus corpos fortes se torceram e chocaram com um estrondo retumbante, os dois caindo juntos na areia dura, numa massa de membros e pelo a rosnar e girar. Ele lutava com força procurando uma brecha. Tudo o que precisava era de uma ligeira pausa na ação para derrubar o irmão. Fazê-lo se submeter. Os segundos passavam enquanto cada um buscava vantagem, exibindo-se e lançando provocações telepáticas.
“Eu tenho o nó maior.”
“Eu tenho a língua mais talentosa.”
A luta, alimentada pelos eventos formais restritivos da semana, continuou sem cessar por muito mais tempo do que o normal. Nenhum dos dois poderia vencer sem ferir o outro. E esse não era o objetivo. Mas, ainda assim, eles continuaram, além do tempo em que deveriam ter parado. O desejo por uma parceira. Essa era a base desse impulso primordial. Maximus percebia isso, mesmo enquanto não conseguia evitar afirmar seu orgulho de alfa sobre o do irmão.
Com os flancos tremendo de exaustão, ele cravou as mandíbulas na nuca de Alessandro para tentar controlá-lo.
Um rosnado longo e alto de advertência o fez soltar a mordida no mesmo instante. Ele se retesou e fitou a escuridão, as pernas firmes, pronto para o combate com o intruso. Alessandro estava ao seu lado, igualmente preparado para enfrentar o desafio. Ali, perto de uma árvore-de-Josué, um brilho de pontos azuis faiscou — um terceiro lobo. E, atrás dele, outras sombras escuras surgiram, olhos cintilando na noite, formando uma linha sólida de perigo.
Alessandro perguntou:
“Reconhece algum deles?”
Maximus eriçou o pelo, soltando um rosnado de aviso que vibrava no fundo do peito maciço. A fileira de lobos-cinzentos se aproximava dos irmãos, suas enormes patas encurtando a distância em questão de segundos.
“Acalmem-se. Precisamos da sua ajuda.”
Levantando o focinho para testar o ar, ele reconheceu o cheiro da alcateia que estava de visita para o casamento.
“O que vocês querem?”
“Temos uma fêmea mordida por um lobo. Ela está morrendo. Viemos implorar que redobrem os esforços para encontrar o cálice. Para oferecer nossa ajuda.”
Agora ele entendia quais primos ele e Alessandro enfrentavam. O grupo de Los Angeles, que normalmente se mantinha afastado, preferindo não se misturar com a alcateia de Vegas.
“Nós trabalhamos sozinhos.”
Ninguém queria o artefato tanto quanto ele e Alessandro. Não depois do que havia acontecido — um evento devastador que os dilacerara e do qual nunca mais se deveria falar.
Rosnados baixos dos lobos à sua frente seguiram suas palavras, fazendo a juba de seu pescoço se eriçar.
Alessandro, sempre o pacificador, tranquilizou a outra alcateia.
“Vamos compartilhar o que sabemos.”
“Bom.” O maior dos lobos assentiu com a cabeça. “É tarde demais para a nossa fêmea, mas outros podem ser salvos. Venham vê-la. Esta noite. Então saberão o quão grave é.”
Sim, ele sabia muito bem o quão grave aquilo poderia ser. Um terrível pressentimento, como uma presença viva e maligna que sugava todo o oxigênio do ar, pousou uma mão gelada sobre seu coração. O medo do pior que poderia acontecer.
A perda de uma companheira verdadeira pode acabar com um lobo… e transformá-lo numa criatura de morte e destruição.